terça-feira, 24 de junho de 2014

Sobre Festas Juninas




sábado, junho 21, 2014


Sobre Festas Juninas

A festa celebra o nascimento de João Batista, que virou um dos santos católicos. É realizada no dia 24 de junho com base no fato que João Batista havia nascido seis meses antes de Jesus (Lc 1:26,36). Se o nascimento de Jesus (Natal) é celebrado em 25 de dezembro, então o de João Batista é celebrado seis meses antes, em 24 de junho. É claro que estas datas são convenções, apenas, pois não sabemos ao certo a data do nascimento do Senhor.

A origem das fogueiras nas celebrações deste dia é obscura. Parece que vem do costume pagão de adorar seus deuses com fogueiras. Os druidas britânicos, segundo consta, adoravam Baal com fogos de artifício. Depois a Igreja Católica inventou a história que Isabel acendeu uma fogueira para avisar Maria que João tinha nascido. Outra lenda é que na comemoração deste dia, fogueiras espontâneas surgiram no alto dos montes.

Já a quadrilha tem origem francesa, sendo uma dança da elite daquele país, que só prosperou no Brasil rural. Daí a ligação com as roupas caipiras. Por motivos obscuros acabou fazendo parte das festividades de São João.

Fazem parte ainda das celebrações no Brasil (é bom lembrar que estas festas também são celebradas em alguns países da Europa) as comidas de milho – provavelmente associadas com a quadrilha que vem do interior – as famosas balas de “Cosme e Damião.” São realizadas missas e procissões, muitas rezas e pedidos feitos a São João. As comidas são oferecidas a ele.

Se estas festividades tivessem somente um caráter religioso e fossem celebradas dentro das igrejas como se fossem parte das atividades dos católicos, não haveria qualquer dúvida quanto à pergunta, “pode um evangélico participar?” Acontece que as festas juninas foram absorvidas em grande parte pela cultura brasileira de maneira que em muitos lugares já perdeu o caráter de festa religiosa. Para muitos, é apenas uma festa onde acendem-se fogueiras, come-se milho preparado de diferentes maneiras e soltam-se fogos de artifício, sem menção do santo, e sem orações ou rezas feitas a ele.

Paulo enfrentou um caso semelhante na igreja de Corinto. Havia festivais pagãos oferecidos aos deuses nos templos da cidade. Eram os crentes livres para participar e comer carne que havia sido oferecida aos ídolos? A resposta de Paulo foi tríplice:
  • O crente não deveria ir ao templo pagão para estas festas e ali comer carne, pois isto configuraria culto e portanto, idolatria (1Cor 10:19-23). Na mesma linha, eu creio que os crentes não devem ir às igrejas católicas ou a qualquer outro lugar onde haverá oração, rezas, missas e invocação do São João, pois isto implicaria em culto idólatra e falso.
  • Paulo disse ainda que o crente poderia aceitar o convite de um amigo pagão e comer carne na casa dele, mesmo com o risco de que esta carne tivesse sido oferecida aos ídolos. Se, todavia, houvesse alguém presente ali que se escandalizasse, o crente não deveria comer (1Cor 10:27-31). Fazendo uma aplicação para nosso caso, se convidado para ir a casa de um amigo católico neste dia para comer milho, etc., ele poderia ir, desde que não houvesse atos religiosos e desde que ninguém ali ficasse escandalizado.
  • E por fim, Paulo diz que o crente pode comer de tudo que se vende no mercado sem perguntar nada. A exceção é causar escândalo (1Cor 10:25-26). Aplicando para nosso caso, não vejo problema em o crente comer milho, pamonha, mungunzá, etc. neste dia e estar presente em festas juninas onde não há qualquer vínculo religioso, desde que não vá provocar escândalos e controvérsias. Se Paulo permitiu que os crentes comessem carne que possivelmente vieram dos templos pagãos para os açougues, desde que não fosse em ambiente de culto, creio que podemos fazer o mesmo, ressalvado o amor que nos levaria à abstinência em favor dos que se escandalizariam.
Segue abaixo parte de um livro meu onde abordo com mais detalhes o que Paulo ensinou aos coríntios em casos envolvendo a liberdade cristã.

O CULTO ESPIRITUAL, Augustus Nicodemus Lopes. Cultura Cristã, 2012.

“A situação de Corinto era diferente. O problema lá não era o mesmo tratado no concílio de Jerusalém. O problema não era os escrúpulos de judeus cristãos ofendidos pela atitude liberal de crentes gentios quanto à comida oferecida aos ídolos. Portanto, a solução de Jerusalém não servia para Corinto. É provavelmente por esse motivo que o apóstolo não invoca o decreto de Jerusalém.[1] Antes, procura responder às questões que preocupavam os coríntios de acordo com o princípio fundamental de que só há um Deus vivo e verdadeiro, o qual fez todas as coisas; que o ídolo nada é nesse mundo; e que fora do ambiente do culto pagão, somos livres para comer até mesmo coisas que ali foram sacrificadas.

1. A primeira pergunta dos coríntios havia sido: era lícito participar de um festival religioso num templo pagão e ali comer a carne dos animais sacrificados aos deuses? Não, responde Paulo. Isso significaria participar diretamente no culto aos demônios onde o animal foi sacrificado (1 Co 10.16-24). Paulo havia dito que os deuses dos pagãos eram imaginários (1 Co 10.19). Por outro lado, ele afirma que aquilo que é sacrificado nos altares pagãos é oferecido, na verdade, aos demônios e não a Deus (10.20). Paulo não está dizendo que os gentios conscientemente ofereciam seus sacrifícios aos demônios. Obviamente, eles pensavam que estavam servindo aos deuses, e nunca a espíritos malignos e impuros. Entretanto, ao fim das contas, seu culto era culto aos demônios. [2] Paulo está aqui refletindo o ensino bíblico do Antigo Testamento quanto ao culto dos gentios:
 Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus... (Dt 32.17)
...pois imolaram seus filhos e suas filhas aos demônios (Sl 106.37).
 O princípio fundamental é que o homem não regenerado, ao quebrar as leis de Deus, mesmo não tendo a intenção de servir a Satanás, acaba obedecendo ao adversário de Deus e fazendo sua vontade. Satanás é o príncipe desse mundo. Portanto, cada pecado é um tributo em sua honra. Ao recusar-se a adorar ao único Deus verdadeiro (cf. Rm 1.18-25), o homem acaba por curvar-se diante de Satanás e de seus anjos.[3] Para Paulo, participar nos festivais pagãos acabava por ser um culto aos demônios. Por esse motivo, responde que um cristão não deveria comer carne no templo do ídolo. Isso eqüivaleria a participar da mesa dos demônios, o que provocaria ciúmes e zelo da parte de Deus (1 Co 10.21-22). Paulo deseja deixar claro para os coríntios “fortes”, que não tinham qualquer intenção de manter comunhão com os demônios, que era a atitude deles em participar nos festivais do templo que contava ao final. Era a força do ato em si que acabaria por estabelecer comunhão com os demônios.[4]

2. Era lícito comer carne comprada no mercado público? Sim, responde Paulo. Compre e coma, sem nada perguntar (1 Co 10.25). A carne já não está no ambiente de culto pagão. Não mantém nenhuma relação especial com os demônios, depois que saiu de lá. Está “limpa” e pode ser consumida.

3. Era lícito comer carne na casa de um amigo idólatra? Sim e não, responde Paulo. Sim, caso não haja, entre os convidados, algum crente “fraco” que alerte sobre a procedência da carne (1 Co 10.27). Não, quando isso ocorrer (1 Co 10.28-30).

O ponto que desejo destacar é que para o apóstolo Paulo a carne que havia sido sacrificada aos demônios no templo pagão perdia a “contaminação espiritual” depois que saia do ambiente de culto. Era carne, como qualquer outra. É verdade que ele condenou a atitude dos “fortes” que estavam comendo, no próprio templo, a carne sacrificada aos demônios. Mas isso foi porque comer a carne ali era parte do culto prestado aos demônios, assim como comer o pão e beber o vinho na Ceia é parte de nosso culto a Deus. Uma vez encerrado o culto, o pão é pão e o vinho é vinho. Aliás, continuaram a ser pão e vinho, antes, durante e depois. A mesma coisa ocorre com as carnes de animais oferecidas aos ídolos. E o que é verdade acerca da carne, é também verdade acerca de fetiches, roupas, amuletos, estátuas e objetos consagrados aos deuses pagãos. Como disse Calvino,
Alguma dúvida pode surgir se as criaturas de Deus se tornam impuras ao serem usadas pelos incrédulos em sacrifícios. Paulo nega tal conceito, porque o senhorio e possessão de toda terra permanecem nas mãos de Deus. Mas, pelo seu poder, o Senhor sustenta as coisas que tem em suas mãos, e, por causa disto, ele as santifica. Por isso, tudo que os filhos de Deus usam é limpo, visto que o tomam das mãos de Deus, e de nenhuma outra fonte.[5]


[1] Note que Paulo não teve qualquer problema em anunciar o decreto em Antioquia, o que produziu muito conforto entre os irmãos (At 15.30-31).
[2] Não somente Paulo, mas os cristãos em geral tinham esse conceito. João escreveu: “Os outros homens, aqueles que não foram mortos por esses flagelos, não se arrependeram das obras das suas mãos, deixando de adorar os demônios e os ídolos de ouro, de prata, de cobre, de pedra e de pau, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar” (Ap 9.20).
[3] Cf. Charles Hodge, A Commentary on 1 & 2 Corinthians (Carlisle, PA: Banner of Truth, 1857; reimpressão 1978) 193.
[4] Hodge (1 & 2 Corinthians, 194) chama a nossa atenção para o fato de que o mesmo princípio se aplica hoje aos missionários que, por força da “contextualização”, acabam por participar nos festivais pagãos dos povos. Semelhantemente, os protestantes que participam da Missa católica, mesmo não tendo intenção de adorar a hóstia, acabam cometendo esse pecado, ao se curvar diante dela.
[5] João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, em Comentário à Sagrada Escritura, trad. Valter G. Martins (São Paulo: Paracletos, 1996) 320.

Texto: Rev. Augustus Nicodemus Lopes - Pastor Presbiteriano

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O que é Páscoa, afinal?




Páscoa foi uma das três grandes festas religiosas de Israel, no Velho Testamento. Ainda hoje, é a maior celebração religiosa dos judeus. Não é uma festa e celebração cristã, propriamente. Todavia, porque a a morte e a ressurreição de Jesus Cristo aconteceram durante uma celebração da Páscoa, em Jerusalém, confunde-se Páscoa judaica com a chamada Semana Santa, ou Paixão de Cristo. Até porque, como veremos à frente, alguns elementos da Páscoa judaica tornaram-se tipos ou símbolos de Cristo e seu sacrifício expiatório a nosso favor. Assim sendo, nós, cristãos, celebramos uma Páscoa Cristã.
Páscoa Judaica foi instituída num momento crítico da história da Israel, para celebrar, anualmente, uma grande libertação.  A assim chamada Páscoa Cristã celebra e proclama libertação ainda mais extraordinária e abrangente. Muito resumidamente, vamos recordar essa história.

Israel no Egito.

Mais provavelmente, todos já ouvimos falar de Abrão, Isaque e Jacó, os patriarcas de Israel. Jacó, neto de Abraão, teve doze filhos homens e uma filha. Moravam todos em Canaã, também chamada Palestina. Jacó não escondia sua preferência por dois dos seus filhos, José e BenjamimUm dia, os irmãos enciumados, venderam José como escravo a uma caravana que passava a caminho do Egito. A história de José do Egito é uma das mais bonitas da Bíblia (Gênesis 37 a 50). No Egito ele foi escravo, prisioneiro e, então, Governador!
Ao tempo em que José era Governador na terra dos Faraós, houve grande seca em Canaã, razão porque os irmãos de José foram ao Egito comprar mantimento. Quem os atendeu? José. Saltando alguns capítulos dessa novela, José, com o consentimento do Faraó, mandou vir para o Egito toda a sua família, setenta pessoas, inclusive o velho Jacó, então chamado Israel (Gênesis 32.28). Foi assim que os israelitas, também chamados hebreus, foram parar no Egito (Gênesis 46; Atos 7.14-15).
Na terra das pirâmides, “os filhos de Israel foram fecundos, e aumentaram muito, e se multiplicaram, e grandemente se fortaleceram, de maneira que a terra se encheu deles” (Êxodo 1.7). Nos primeiros anos, eles tiveram privilégios e foram bem tratados. Posteriormente, por razão do seu crescimento e fortalecimento, os sucessivos Faraós os submeteram a uma dura escravidão, e isso por quatrocentos anos. Por fim, o Faraó ordenou a morte de todos os meninos que nascessem nos lares hebreus. Foi nesse contexto terrível que Moisés nasceu. Sua mãe, Joquebede, o escondeu por três meses. Depois, não podendo mais fazê-lo, acomodou-o num pequeno cesto impermeabilizado, e o soltou no rio Nilo, confiando que Deus o salvaria (Êxodo 2.1-10)
Foi o que aconteceu. Moisés, veja só, foi recolhido e criado pela filha do Faraó. Aos quarenta anos, cônscio de seu sangue hebreu, foi visitar seu povo. O sangue “ferveu” quando ele viu um egípcio maltratando um hebreu. Em defesa deste, acabou matando o egípcio… Fugiu para a terra de Midiã, nas proximidades do Sinai. Viveu ali outros quarenta anos. Então, Deus, numa visão, ordenou-lhe que voltasse ao Egito e conduzisse o êxodo, ou seja, a libertação e saída de Israel do Egito (Êxodo 2.11-4.31).
Repetidas vezes, Moisés e Arão, seu irmão, disseram ao Faraó: “Assim diz o Senhor, Deus de Israel: Deixa ir o meu povo…” Mas o Faraó, coração endurecido, dizia: “Quem é o Senhor para que lhe ouça a voz, e deixe ir a Israel? Não conheço o Senhor [Jeová], nem tão pouco deixarei ir a Israel” (Êxodo 5.1-2). Deus, então, por mãos de Moisés, desencadeou sobre o Egito as famosas Dez Pragas. Cada uma delas seria não somente um juízo divino contra o Faraó e o Egito, mas também uma demonstração da nulidade dos falsos deuses por eles adorados. Faraó e os egipcios haveriam de saber que “só o Senhor é Deus e que ninguém há como o Senhor” (Êxodo 6.7; 7.17; 8.10,22; 10.2; 12.12). A última praga, a mais terrível, foi a morte dos primogênitos… Naquela noite terrível, por ordem divina, Moisés instituiu a Páscoa!

A instituição da Páscoa.

Na véspera, Deus disse a Moisés que um anjo destruidor seria enviado para matar todos os primogênitos do Egito. Simultaneamente, as famílias hebreias deveriam, cada uma delas, matar um cordeiro macho, de um ano e sem defeito, assá-lo e comê-lo com pães asmos (sem fermento) e ervas amargas. Eles fariam isto“com os lombos cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão…” (Êxodo 12.11). Ou seja, prontos para partir! O sangue do cordeiro deveria ser passado nas vergas das portas, do lado de fora. Seria um sinal, uma identificação das casas hebreias. O anjo passaria adiante, por cima destas casas, e não mataria os primogênitos hebreus. Na língua inglesa, a palavra parapáscoa judaica é passover (passar por cima0).  Claro, o sangue na porta era mais um testemunho de fé e obediência da família do que um sinal para o anjo… Foi assim que se deu o êxodo ou saída de Israel do Egito, a grande libertação, da qual a Páscoa é a grande celebração. (Está história foi contada com grande beleza e efeitos especiais no filme Os Dez Mandamentos, um clássico).

A Páscoa Cristã.

Pode ser assim identificada pelas duas razões mencionadas na introdução: (1) A prisão, a morte e a ressurreição de Jesus, nosso Salvador, ocorreu durante uma celebração da Páscoa, em Jerusalém. (2) O cordeiro da Páscoa, “sem defeito, macho de um ano” (um ano, o tempo de maturidade para este animal) tornou-se um tipo ou símbolo de Cristo, o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”,segundo disse João Batista, o precursor de Jesus (João 1.29), e nosso  “Cordeiro pascal”, conforme escreveu o apóstolo Paulo (I Coríntios 5.7). O apóstolo Pedro também escreveu: “… portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação, sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados [libertos] do vosso fútil procedimento… mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo… Por ele tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos…” (I Pedro 1.17-21). O sangue do cordeiro com o qual os hebreus assinalaram as portas de suas casas, o que salvou seus primogênitos, é símbolo do sangue de Cristo, que, conforme escreveu o citado apóstolo João, “nos purifica de todo pecado” (I João 1.7 e 9). Nem precisa dizer que não é o sangue propriamente (que nem temos) mas, sim, a fé na eficácia do sacrifício único e perfeito, vicário e expiatório que Jesus realizou por nós na cruz, durante aquela Páscoa, em Jerusalém. Vicário por que ele nos substituiu na cruz, como os cordeiros substituíram os primogênitos hebreus, no Egito; expiatório porque pagou por nossos pecados. Ele foi o “bode expiatório”, expressão que aparece no Velho Testamento, referindo-se aos cordeiros ou bodes que eram sacrificados pelos pecados do povo (Números 5.8. Ver Levítico 5.17-19).
Então, estamos melhor preparados para celebrar a Páscoa? Este é um tempo precioso não para enriquecer o comércio, não propriamente para nos entalarmos de chocolate e curtir o feriadão (embora um chocolatezinho não faça mal a ninguém e o feriadão seja bem-vindo…). Mas não deixemos de refletir no verdadeiro significado da Páscoa, a Páscoa Cristã! Para os que creem em Cristo como seu Salvador e Senhor, os que, por assim dizer, assinalaram suas vidas com Seu sangue, Páscoa é celebração de libertação de uma vida de escravidão ao pecado (qualquer pecado grande ou pequeno), e do início da vida cristã, ou, para lembrar os quarenta anos de Israel no deserto, a caminho de Canaã, início da jornada pelos desertos da vida, até chegar à Canaã Celestial!  Para os que ainda não estão certos disso, Páscoa é tempo de arrependimento, confissão, perdão, salvação, gratidão! Deus os abençoe.
Por Éber Lenz César

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Educação de Filhos - Efésios 6.1-4


Rev. Fernando de Almeida - Pastor Presbiteriano

1.Filhos: Bênção de Deus

A Igreja Cristã tem por obrigação rechaçar o divórcio por entender que a unidade familiar foi planejada por Deus. Esta unidade não é só composta por marido e esposa mas homem e mulher carregam um outro status: o de pai e mãe.
No nosso texto básico, percebemos que Paulo destaca, além do matrimônio (Ef 5.22-33), a paternidade (Ef 6.1-4) como elementos fundamentais para a formação de um lar verdadeiramente cristão.
Não poderia ser mais correta a afirmação do salmista: “Herança do SENHOR são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão.” (Sl 127:3). “Herança” e “Galardão” dão a idéia de grande valor, uma bênção inestimável confiada a nós por Deus.
Talvez isso nos faça perguntar: “Por que então parece que para grande parte da sociedade, os filhos são mais um peso do que um presente de Deus?”
Consideremos dois pontos de vista:

a. Filhos são bênção em um lar cristão – O que é um lar cristão? Com certeza a resposta tem a ver com a presença de Cristo nesse lar. Se ele não está presente, seus valores também não estarão. Concluímos disso que a sobrevivência da família nunca precisou tanto de Jesus como em nossos dias.
b. Má definição de bênção – “Bênção” não é só sinônimo de coisas boas. A Bíblia mostra através de muitos exemplos como filhos de Deus passaram por problemas difíceis e também como isso lhes resultou em grandes benefícios.
Caros pais, vocês já pensaram que quando seus filhos testam sua paciência, te enervam, desobedecem, respondem ou adoecem no meio da madrugada, Deus está abençoando vocês? Deus está moldando-os, amadurecendo-os e dando a vocês a oportunidade de crescerem na dependência dele. Reavalie portanto a sua definição pessoal do que é bênção. Talvez vocês não estejam percebendo de quão grandes bênçãos são portadores.

2.Toda bênção exige uma responsabilidade

Quando presenteamos nossos filhos com algo de maior valor segue-se uma ladainha de recomendações: “Não vai deixar jogado!”, “Cuidado para não sujar!”, “Não empresta para qualquer um!” Deus, ao nos dar filhos como bênçãos nos dá recomendações para que desfrutemos deste presente da maneira mais plena possível. Essa comparação nos lembra que pais crentes também são filhos e se forem obedientes ao Pai Celeste terão melhor êxito como pais terrenos. Vejamos esses dois lados da responsabilidade dos pais:

A.Responsabilidade para com Deus

Para sermos bons pais temos que aprender a ser bons filhos de Deus. Se o seu objetivo é criar filhos no caminho do Senhor, “de que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho?” (Sl 119.9a) Essa pergunta também intrigava o salmista mas ele sabia a resposta: “Observando-o segundo a tua palavra.” (Sl 119:9b) Mas como cobraremos aquilo que não praticamos e nem sequer conhecemos? A responsabilidade dos pais crentes diante de Deus pode ser resumida nos seguintes itens.
a.Conhecer a sua Palavra – O cristão tem o dever de ser assíduo na sua igreja local pois ali ouvirá a Palavra de Deus e será incentivado a estudá-la. Ele deve também ter os seus momentos devocionais particulares com Deus nos quais manterá comunhão direta com Ele através da leitura da Bíblia e da oração.
b.Obedecer – “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.” (Tg 1:22) Tudo o que ouvimos e lemos tem que se converter em prática de vida. Isso dá aos pais autoridade para cobrar a obediência de seus filhos e para discipliná-los quando for preciso.
c.Tornar-se exemplo – “…torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza.” (1Tm 4:12). Assim como em qualquer responsabilidade, tornar-se exemplo começa dentro de nosso lar. Paulo dizia: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo.” (1Co 11:1) Será que você poderia dizer isso ao seu próprio filho?

B.Responsabilidades para com os filhos

a.Criar um ambiente de amor no lar – Percebam que ainda não chegamos a uma atitude prática em relação aos filhos. Antes disso, precisamos falar de como marido e mulher devem se portar como pais. Essa é a abordagem apresentada em nosso texto básico. Antes de o apóstolo Paulo falar da relação entre pais e filhos (Ef 6.1-4) ele descreve por muitos versos como deve ser a relação entre marido e mulher (Ef 5.22-33) e, segundo o texto, podemos definir essa relação em uma só palavra: amor,a condição d necessária para dar um referencial aos filhos. Como educá-los se vivemos em pé de guerra com nosso cônjuge?
b.Ensinar – “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.” (Pv 22:6) O caminho que se deve andar é o da obediência a Deus. Para que isso aconteça os pais têm que preocupar-se em orar pelos seus filhos e com eles; quando bem pequenos, ler historinhas bíblicas e encaminhá-los ao estudo para que possam aprender a ler a Bíblia por si sós, cobrar deles este tempo devocional diário. “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.” (Dt 6:6-7) Estes versículos ensinam algumas lições a respeito da educação dos filhos. Veja os pontos a seguir:

Empenho - Ensinar não é uma tarefa fácil, se o fosse, não passaríamos oito anos da nossa vida para cumprir apenas o ensino fundamental. É necessário dedicação por parte dos pais devido a importância dessa tarefa.
Perseverança - Muitos pais reclamam: “Já falei mil vezes a mesma coisa e parece que meu filho não aprende!” Nunca podemos nos esquecer de que é necessário perseverar para que haja aprendizado. É assim que Deus nos trata na sua Palavra. Existem muitas repetições na Bíblia. Elas não estão ali por acaso. É que somos teimosos mesmo. E isso é de nascença.
Naturalidade - “…delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.” Isso mostra que o processo de ensino tem que ser o mais natural possível. Os pais devem aproveitar as oportunidades que os momentos com os filhos propiciam para educá-los no caminho do Senhor. Isso está na contramão da prática atual da sociedade. Os pais modernos acham que ensinar se resume àqueles momentos em que o filho apronta alguma coisa e os pais dizem a célebre frase: “Filho, vamos conversar lá no seu quarto”. Essa não é a melhor educação. Isso nem sequer é educação pois é correção. Mas como cobrar e corrigir algo que nem sequer foi ensinado? Aproveite as perguntas do seu filho, a notícia do jornal, o problema de um conhecido e ensine o que a Bíblia diz a respeito.
Exemplo - “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos…” Como já vimos anteriormente, só podemos ensinar aquilo que está em nosso coração. Se assim não o for, correremos o perigo de borrar com o braço aquilo que escrevemos com a mão.
c.Disciplinar - “E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor. (Ef 6:4)
Duas coisas podem fazer com que seus filhos se tornem iracundos quando mais velhos: o excesso de disciplina e a falta dela. O texto de Efésios enfatiza esta última. O que o texto quer dizer é que os pais podem permitir o afloramento da ira em seus filhos negligenciando a disciplina. Paulo também ensina o problema inverso: “Pais, não irriteis os vossos filhos, para que não fiquem desanimados.” (Cl 3.21) Esta palavra “irritar” está ligada a severidade, ou seja, despertar a ira pelo excesso de castigo. Isso causa desânimo. Sabe por que? Porque eles vão pensar: “Não importa o que eu faça, vou estar sempre errado mesmo!”
Se tratando de disciplina, a chave para seu pleno exercício bíblico é o equilíbrio, pois seu objetivo não é descarregar a raiva e sim trazer seu filho ao caminho certo. Isso pode ser feito de duas maneiras:
- Admoestação – “Mais fundo entra a repreensão no prudente do que cem açoites no insensato.” (Pv 17:10). Ao menos que haja reincidência os pais devem primeiro tentar exortar seus filhos. Como confirma o provérbio, por vezes uma dura repreensão é mais eficaz do que bater.
- O uso da vara – Isso vai contra tudo o que se tem pregado por ai mas a Bíblia legitima este dever do pai. Primeiro do próprio exemplo de Deus: “Filho meu, não menosprezes a correção que vem do Senhor, nem desmaies quando por ele és reprovado; porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe. É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como filhos); pois que filho há que o pai não corrige?” (Hb12:5-7) Deus não só age assim mas como também nos cobra o mesmo procedimento:

Provérbios 13:24 – “O que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo, o disciplina.”
Provérbios 23:13-14 – “Não retires da criança a disciplina, pois, se a fustigares com a vara, não morrerá. Tu a fustigarás com a vara e livrarás a sua alma do inferno.”

É claro, a disciplina não pode ser aplicada com exagero:

Provérbios 19:18 – “Castiga a teu filho, enquanto há esperança, mas não te excedas a ponto de matá-lo.”

Veja também Provérbios 3.12; 4.20-23; 6.20-22; 20.30; 22.15; 29.15; Salmo 78.5-7


Realmente a tarefa de educar os filhos não é nada fácil. Aliás, nada nesta vida é fácil se não formos dependentes de Deus. Mantenha sempre comunhão com Ele e com a sua Palavra a quale não só nos auxilia nesta importante missão mas também em relação a qualquer assunto de nossa vida: ”Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” (2Tm 3:16-17). Só através da Palavra de Deus poderemos além de fazer frente, também derrotar este mundo que tenta deseducar nossos filhos bombardeando-os com toda a sorte de impurezas.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

10 razões porque a pregação das Escrituras deve ocupar o centro do culto


O reformador francês João Calvino via a Pregação do Evangelho como o centro da vida e obra da igreja. Ele cria que a pregação era central na igreja porque ela era o modo de Deus salvar o Seu povo, até o ponto dele se considerar também um ouvinte: "Quando eu subo ao púlpito não é para ensinar os outros somente. Eu não me retiro aparte, visto que eu devo ser um estudante, e a Palavra que procede da minha boca deve servir para mim assim como para você, ou ela será o pior para mim. ", dizia ele.

Para Calvino a pregação da Palavra era um meio de graça para o povo de Deus - “Quando nos reunimos em nome de Deus”, ele dizia, “não é para ouvir meros cânticos" (diferentemente da nossa geração que valoriza extravagantemente o momento de louvor). Para Calvino, os que desenvolviam tais práticas se alimentavam exclusivamente de vento. Além disso, Calvino cria que a pregação deveria ser “sem exibição”, para que o povo de Deus pudesse reconhecer nela a Palavra de Deus e para que o próprio Deus, e não o pregador pudesse ser honrado e obedecido.

A luz deste background gostaria de trazer 10 razões porque a pregação das Escrituras deve ocupar o centro do nosso culto:

1- Cristo é exaltado.  As Escrituras quando pregadas exaltam o nome do Senhor. É impossível expor a Bíblia sem que o nome do Eterno seja glorificado.

2- O homem é humilhado. A Exposição das Escrituras aponta para o estado de miserabilidade do homem. A pregação da Bíblia revela quem somos, nossas incongruências, idiossincrasias e pecaminosidade, revelando-nos que fora de Cristo todos estão mortos em seus delitos e pecados.

3- Somos reanimados no Senhor. As Escrituras quando  pregadas trazem sobre a finitude humana, o poder infinito de um Deus Soberano proporcionando com isso o reascendimento da chama da esperança.

4- Nossa psiquê é envolvida por graça. A Palavra de Deus quando pregada traz remédio para a alma cansada, refrigério para o abatido, alento para o desesperançoso.

5- A Igreja é edificada. Quando a Bíblia é proclamada nossas igrejas são edificadas. A exposição das Escrituras, ao contrário dos movimentos vazios contemporâneos, fazem com que o povo de Cristo cresça no conhecimento do Senhor.

6- Somos protegidos dos erros doutrinários. Calvino costumava dizer que as Escrituras Sagradas é o escudo que nos protege do erro. A Bíblia quando pregada nos traz orientações importantíssimas que se aplicadas em nosso cotidiano nos protegem das heresias e distorções teológicas propagadas pelos falsos profetas.

7- Nos tornamos pessoas mais comprometidas com Cristo. As Escrituras quando pregadas nos desafiam a viver como Cristo viveu. A Bíblia quando proclamada nos leva a desejarmos viver a vida cristã de forma santa, pura e abnegada.

8- Vivemos para a glória de Deus. A Bíblia quando pregada leva-nos a querer viver exclusivamente para a glória de Deus. 

9- Ansiamos pela volta do nosso Redentor. As Escrituras quando proclamadas nos levam a ima santa ansiedade pelo glorioso dia em que o Rei dos reis e Senhor dos Senhores voltará para  a sua igreja.

10- Somos reavivados. A Bíblia quando pregada reaviva nossa alma, aquece os corações, desperta-nos para oração, desafia-nos a intercessão enchendo nossos corações com o santo desejo de estar continuamente em sua santa presença.

Pense nisso!
Por Renato Vargens

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Como Reconhecer uma Seita?


Existem milhares de religiões neste mundo, e obviamente nem todas são certas. O próprio Jesus advertiu seus discípulos de que viriam falsos profetas usando Seu nome, e ensinando mentiras, para desviar as pessoas da verdade (Mateus 24.24). O apóstolo Paulo também falou que existem pessoas de consciência cauterizada, que falam mentiras, e que são inspirados por espíritos enganadores (1 Timóteo 4.1-2). Nós chamamos de seitas a essas religiões. Não estamos dizendo que todos os que pertencem a uma seita são desonestos ou mal intencionados. Existem muitas pessoas sinceras que caíram vítimas de falsos profetas. Para evitar que isto ocorra conosco, devemos ser capazes de distinguir os sinais característicos das seitas. Embora elas sejam muitas, possuem pelo menos cinco marcas em comum:

(1) Elas têm outra fonte de autoridade além da Bíblia. Enquanto que os cristãos admitem apenas a Bíblia como fonte de conhecimento verdadeiro de Deus, as seitas adotam outras fontes. Algumas forjaram seus próprios livros; outras aceitam revelações diretas da parte de Deus; outras aceitam a palavra de seus líderes como tendo autoridade divina. Outras falam ainda de novas revelações dadas por anjos, ou pelo próprio Jesus. E mesmo que ainda citem a Bíblia, ela tem autoridade inferior a estas revelações.

(2) Elas acabam por diminuir a pessoa de Cristo. Embora muitas seitas falem bem de Jesus Cristo, não o consideram como sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nem como sendo o único Salvador da humanidade. Reduzem-no a um homem bom, a um homem divinizado, a um espírito aperfeiçoado através de muitas encarnações, ou à mais uma manifestação diferente de Deus, igual a outros líderes religiosos como Buda ou Maomé. Freqüentemente, as seitas colocam outras pessoas no lugar de Cristo, a quem adoram e em quem confiam.

(3) As seitas ensinam a salvação pelas obras. Essa é uma característica universal de todas as seitas. Por acreditarem que o homem é intrinsecamente bom e capaz de por si mesmo fazer o que é preciso para salvar a sua alma, pregam que ele pode acumular méritos e vir a merecer o perdão de Deus, através de suas boas obras praticadas neste mundo. Embora as seitas sejam muito diferentes em sua aparência externa, são iguais neste ponto. Algumas falam em fé, mas sempre entendem a fé como sendo um ato humano meritório. E nisto diferem radicalmente do ensino bíblico da salvação pela graça mediante a fé.

(4) As seitas são exclusivistas quanto à salvação. Pregam que somente os membros do seu grupo religioso poderão se salvar. Enquanto que os cristãos reconhecem que a salvação é dada a qualquer um que arrependa-se dos seus pecados e creia em Jesus Cristo como único Senhor e Salvador (não importa a denominação religiosa), as seitas ensinam que não há salvação fora de sua comunidade.

(5) As seitas se consideram o grupo fiel dos últimos tempos. Elas ensinam que receberam algum tipo de ensino secreto que Deus havia guardado para os seus fiéis, perto do fim do mundo. É interessante que toda vez que nos aproximamos do fim de um milênio, cresce o número de seitas afirmando que são o grupo fiel que Deus reservou para os últimos dias da humanidade.


Podemos e devemos ajudar as pessoas que caíram vítimas de alguma seita. Na carta de Tiago está escrito que devemos procurar ganhar aqueles que se desviaram da verdade (Tiago 5.19-20). Para isto, entretanto, é preciso que nós mesmos conheçamos profundamente a Bíblia bem como as doutrinas centrais do Cristianismo. Mais que isto, devemos ter uma vida de oração, em comunhão com Cristo, para recebermos dele poder e amor e moderação.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Os Desigrejados

                Pr. Augustus Nicodemus Lopes                                         


Para mim resta pouca dúvida de que a igreja institucional e organizada está hoje no centro de acirradas discussões em praticamente todos os quartéis da cristandade, e mesmo fora dela. O surgimento de milhares de denominações evangélicas, o poderio apostólico de igrejas neopentecostais, a institucionalização e secularização das denominações históricas, a profissionalização do ministério pastoral, a busca de diplomas teológicos reconhecidos pelo estado, a variedade infindável de métodos de crescimento de igrejas, de sucesso pastoral, os escândalos ocorridos nas igrejas, a falta de crescimento das igrejas tradicionais, o fracasso das igrejas emergentes – tudo isto tem levado muitos a se desencantarem com a igreja institucional e organizada.

Alguns simplesmente abandonaram a igreja e a fé. Mas, outros, querem abandonar apenas a igreja e manter a fé. Querem ser cristãos, mas sem a igreja. Muitos destes estão apenas decepcionados com a igreja institucional e tentam continuar a ser cristãos sem pertencer ou frequentar nenhuma. Todavia, existem aqueles que, além de não mais frequentarem a igreja, tomaram esta bandeira e passaram a defender abertamente o fracasso total da igreja organizada, a necessidade de um cristianismo sem igreja e a necessidade de sairmos da igreja para podermos encontrar Deus. Estas idéias vêm sendo veiculadas através de livros, palestras e da mídia. Viraram um movimento que cresce a cada dia. São os desigrejados.


Muitos livros recentes têm defendido a desigrejação do cristianismo (*). Em linhas gerais, os desigrejados defendem os seguintes pontos.



1) Cristo não deixou qualquer forma de igreja organizada e institucional.



2) Já nos primeiros séculos os cristãos se afastaram dos ensinos de Jesus, organizando-se como uma instituição, a Igreja, criando estruturas, inventando ofícios para substituir os carismas, elaborando hierarquias para proteger e defender a própria instituição, e de tal maneira se organizaram que acabaram deixando Deus de fora. Com a influência da filosofia grega na teologia e a oficialização do cristianismo por Constantino, a igreja corrompeu-se completamente.



3) Apesar da Reforma ter se levantado contra esta corrupção, os protestantes e evangélicos acabaram caindo nos mesmíssimos erros, ao criarem denominações organizadas, sistemas interligados de hierarquia e processos de manutenção do sistema, como a disciplina e a exclusão dos dissidentes, e ao elaborarem confissões de fé, catecismos e declarações de fé, que engessaram a mensagem de Jesus e impediram o livre pensamento teológico.



4) A igreja verdadeira não tem templos, cultos regulares aos domingos, tesouraria, hierarquia, ofícios, ofertas, dízimos, clero oficial, confissões de fé, rol de membros, propriedades, escolas, seminários.



5) De acordo com Jesus, onde estiverem dois ou três que crêem nele, ali está a igreja, pois Cristo está com eles, conforme prometeu em Mateus 18. Assim, se dois ou três amigos cristãos se encontrarem no Frans Café numa sexta a noite para falar sobre as lições espirituais do filme O Livro de Eli, por exemplo, ali é a igreja, não sendo necessário absolutamente mais nada do tipo ir à igreja no domingo ou pertencer a uma igreja organizada.



6) A igreja, como organização humana, tem falhado e caído em muitos erros, pecados e escândalos, e prestado um desserviço ao Evangelho. Precisamos sair dela para podermos encontrar a Deus.



Eu concordo com vários dos pontos defendidos pelos desigrejados. Infelizmente, eles estão certos quanto ao fato de que muitos evangélicos confundem a igreja organizada com a igreja de Cristo e têm lutado com unhas e dentes para defender sua denominação e sua igreja, mesmo quando estas não representam genuinamente os valores da Igreja de Cristo. Concordo também que a igreja de Cristo não precisa de templos construídos e nem de todo o aparato necessário para sua manutenção. Ela, na verdade, subsistiu de forma vigorosa nos quatro primeiros séculos se reunindo em casas, cavernas, vales, campos, e até cemitérios. Os templos cristãos só foram erigidos após a oficialização do Cristianismo por Constantino, no séc. IV.



Os desigrejados estão certos ao criticar os sistemas de defesa criados para perpetuar as estruturas e a hierarquia das igrejas organizadas, esquecendo-se das pessoas e dando prioridade à organização. Concordo com eles que não podemos identificar a igreja com cultos organizados, programações sem fim durante a semana, cargos e funções como superintendente de Escola Dominical, organizações internas como uniões de moços, adolescentes, senhoras e homens, e métodos como células, encontros de casais e de jovens, e por ai vai. E também estou de acordo com a constatação de que a igreja institucional tem cometido muitos erros no decorrer de sua longa história.



Dito isto, pergunto se ainda assim está correto abandonarmos a igreja institucional e seguirmos um cristianismo em vôo solo. Pergunto ainda se os desigrejados não estão jogando fora o bebê junto com a água suja da banheira. Ao final, parece que a revolta deles não é somente contra a institucionalização da igreja, mas contra qualquer coisa que imponha limites ou restrições à sua maneira de pensar e de agir. Fico com a impressão que eles querem se livrar da igreja para poderem ser cristãos do jeito que entendem, acreditarem no que quiserem – sendo livres pensadores sem conclusões ou convicções definidas – fazerem o que quiserem, para poderem experimentar de tudo na vida sem receio de penalizações e correções. Esse tipo de atitude anti-instituição, antidisciplina, anti-regras, anti-autoridade, antilimites de todo tipo se encaixa perfeitamente na mentalidade secular e revolucionária de nosso tempo, que entra nas igrejas travestida de cristianismo.



É verdade que Jesus não deixou uma igreja institucionalizada aqui neste mundo. Todavia, ele disse algumas coisas sobre a igreja que levaram seus discípulos a se organizarem em comunidades ainda no período apostólico e muito antes de Constantino.



1) Jesus disse aos discípulos que sua igreja seria edificada sobre a declaração de Pedro, que ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16.15-19). A igreja foi fundada sobre esta pedra, que é a verdade sobre a pessoa de Jesus (cf. 1Pd 2.4-8). O que se desviar desta verdade – a divindade e exclusividade da pessoa de Cristo – não é igreja cristã. Não admira que os apóstolos estivessem prontos a rejeitar os livre-pensadores de sua época, que queriam dar uma outra interpretação à pessoa e obra de Cristo diferente daquela que eles receberam do próprio Cristo. As igrejas foram instruídas pelos apóstolos a rejeitar os livre-pensadores como os gnósticos e judaizantes, e libertinos desobedientes, como os seguidores de Balaão e os nicolaítas (cf. 2Jo 10; Rm 16.17; 1Co 5.11; 2Ts 3.6; 3.14; Tt 3.10; Jd 4; Ap 2.14; 2.6,15). Fica praticamente impossível nos mantermos sobre a rocha, Cristo, e sobre a tradição dos apóstolos registrada nas Escrituras, sem sermos igreja, onde somos ensinados, corrigidos, admoestados, advertidos, confirmados, e onde os que se desviam da verdade apostólica são rejeitados.



2) A declaração de Jesus acima, que a sua igreja se ergue sobre a confissão acerca de sua Pessoa, nos mostra a ligação estreita, orgânica e indissolúvel entre ele e sua igreja. Em outro lugar, ele ilustrou esta relação com a figura da videira e seus galhos (João 15). Esta união foi muito bem compreendida pelos seus discípulos, que a compararam à relação entre a cabeça e o corpo (Ef 1.22-23), a relação marido e mulher (Ef 5.22-33) e entre o edifício e a pedra sobre o qual ele se assenta (1Pd 2.4-8). Os desigrejados querem Cristo, mas não querem sua igreja. Querem o noivo, mas rejeitam sua noiva. Mas, aquilo que Deus ajuntou, não o separe o homem. Não podemos ter um sem o outro.



3) Jesus instituiu também o que chamamos de processo disciplinar, quando ensinou aos seus discípulos de que maneira deveriam proceder no caso de um irmão que caiu em pecado (Mt 18.15-20). Após repetidas advertências em particular, o irmão faltoso, porém endurecido, deveria ser excluído da “igreja” – pois é, Jesus usou o termo – e não deveria mais ser tratado como parte dela (Mt 18.17). Os apóstolos entenderam isto muito bem, pois encontramos em suas cartas dezenas de advertências às igrejas que eles organizaram para que se afastassem e excluíssem os que não quisessem se arrepender dos seus pecados e que não andassem de acordo com a verdade apostólica. Um bom exemplo disto é a exclusão do “irmão” imoral da igreja de Corinto (1Co 5). Não entendo como isto pode ser feito numa fraternidade informal e livre que se reúne para bebericar café nas sextas à noite e discutir assuntos culturais, onde não existe a consciência de pertencemos a um corpo que se guia conforme as regras estabelecidas por Cristo.



4) Jesus determinou que seus seguidores fizessem discípulos em todo o mundo, e que os batizassem e ensinassem a eles tudo o que ele havia mandado (Mt 28.19-20). Os discípulos entenderam isto muito bem. Eles organizaram os convertidos em igrejas, os quais eram batizados e instruídos no ensino apostólico. Eles estabeleceram líderes espirituais sobre estas igrejas, que eram responsáveis por instruir os convertidos, advertir os faltosos e cuidar dos necessitados (At 6.1-6; At 14.23). Definiram claramente o perfil destes líderes e suas funções, que iam desde o governo espiritual das comunidades até a oração pelos enfermos (1Tm 31-13; Tt 1.5-9; Tg 5.14).



5) Não demorou também para que os cristãos apostólicos elaborassem as primeiras declarações ou confissões de fé que encontramos (cf. Rm 10.9; 1Jo 4.15; At 8.36-37; Fp 2.5-11; etc.), que serviam de base para a catequese e instrução dos novos convertidos, e para examinarem e rejeitarem os falsos mestres. Veja, por exemplo, João usando uma destas declarações para repelir livre-pensadores gnósticos das igrejas da Ásia (2Jo 7-10; 1Jo 4.1-3). Ainda no período apostólico já encontramos sinais de que as igrejas haviam se organizado e estruturado, tendo presbíteros, diáconos, mestres e guias, uma ordem de viúvas e ainda presbitérios (1Tm 3.1; 5.17,19; Tt 1.5; Fp 1.1; 1Tm 3.8,12; 1Tm 5.9; 1Tm 4.14). O exemplo mais antigo que temos desta organização é a reunião dos apóstolos e presbíteros em Jerusalém para tratar de um caso de doutrina – a inclusão dos gentios na igreja e as condições para que houvesse comunhão com os judeus convertidos (At 15.1-6). A decisão deste que ficou conhecido como o “concílio de Jerusalém” foi levada para ser obedecida nas demais igrejas (At 16.4), mostrando que havia desde cedo uma rede hierárquica entre as igrejas apostólicas, poucos anos depois de Pentecostes e muitos anos antes de Constantino.



6) Jesus também mandou que seus discípulos se reunissem regularmente para comer o pão e beber o vinho em memória dele (Lc 22.14-20). Os apóstolos seguiram a ordem, e reuniam-se regularmente para celebrar a Ceia (At 2.42; 20.7; 1Co 10.16). Todavia, dada à natureza da Ceia, cedo introduziram normas para a participação nela, como fica evidente no caso da igreja de Corinto (1Co 11.23-34). Não sei direito como os desigrejados celebram a Ceia, mas deve ser difícil fazer isto sem que estejamos na companhia de irmãos que partilham da mesma fé e que crêem a mesma coisa sobre o Senhor.



É curioso que a passagem predileta dos desigrejados – “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.20) – foi proferida por Jesus no contexto da igreja organizada. Estes dois ou três que ele menciona são os dois ou três que vão tentar ganhar o irmão faltoso e reconduzi-lo à comunhão da igreja (Mt 18.16). Ou seja, são os dois ou três que estão agindo para preservar a pureza da igreja como corpo, e não dois ou três que se separam dos demais e resolvem fazer sua própria igrejinha informal ou seguir carreira solo como cristãos.



O meu ponto é este: que muito antes do período pós-apostólico, da intrusão da filosofia grega na teologia da Igreja e do decreto de Constantino – os três marcos que segundo os desigrejados são responsáveis pela corrupção da igreja institucional – a igreja de Cristo já estava organizada, com seus ofícios, hierarquia, sistema disciplinar, funcionamento regular, credos e confissões. A ponto de Paulo se referir a ela como “coluna e baluarte da verdade” (1Tm 3.15) e o autor de Hebreus repreender os que deixavam de se congregar com os demais cristãos (Hb 10.25). O livro de Atos faz diversas menções das “igrejas”, referindo-se a elas como corpos definidos e organizados nas cidades (cf. At 15.41; 16.5; veja também Rm 16.4,16; 1Co 7.17; 11.16; 14.33; 16.1; etc. – a relação é muito grande).



No final, fico com a impressão que os desigrejados, na verdade, não são contra a igreja organizada meramente porque desejam uma forma mais pura de Cristianismo, mais próxima da forma original – pois esta forma original já nasceu organizada e estruturada, nos Evangelhos e no restante do Novo Testamento. Acho que eles querem mesmo é liberdade para serem cristãos do jeito deles, acreditar no que quiserem e viver do jeito que acham correto, sem ter que prestar contas a ninguém. Pertencer a uma igreja organizada, especialmente àquelas que historicamente são confessionais e que têm autoridades constituídas, conselhos e concílios, significa submeter nossas idéias e nossa maneira de viver ao crivo do Evangelho, conforme entendido pelo Cristianismo histórico. Para muitos, isto é pedir demais.



Eu não tenho ilusões quanto ao estado atual da igreja. Ela é imperfeita e continuará assim enquanto eu for membro dela. A teologia Reformada não deixa dúvidas quanto ao estado de imperfeição, corrupção, falibilidade e miséria em que a igreja militante se encontra no presente, enquanto aguarda a vinda do Senhor Jesus, ocasião em que se tornará igreja triunfante. Ao mesmo tempo, ensina que não podemos ser cristãos sem ela. Que apesar de tudo, precisamos uns dos outros, precisamos da pregação da Palavra, da disciplina e dos sacramentos, da comunhão de irmãos e dos cultos regulares.



Cristianismo sem igreja é uma outra religião, a religião individualista dos livre-pensadores, eternamente em dúvida, incapazes de levar cativos seus pensamentos à obediência de Cristo.
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NOTA:
(*) Podemos mencionar entre eles: George Barna, Revolution (Revolução), 2005; William P. Young, The Shack: a novel (A Cabana: uma novela), 2007; Brian Sanders, Life After Church(Vida após a igreja), 2007; Jim Palmer, Divine Nobodies: shedding religion to find God(Joões-ninguém divinos: deixando a religião para encontrar a Deus), 2006; Martin Zener, How to Quit Church without Quitting God (Como deixar a Igreja sem deixar a Deus), 2002; Julia Duin, Quitting Church: why the faithful are fleeing and what to do about it (Deixando a Igreja: por que os fiéis estão saindo e o que fazer a respeito disto), 2008; Frank Viola, Pagan Christianity? Exploring the roots of our church practices (Cristianismo pagão? Explorando as raízes das nossas práticas na Igreja), 2007; Paulo Brabo, Bacia das Almas: Confissões de um ex-dependente de igreja (2009).