terça-feira, 7 de setembro de 2010

Evangélicos e "evangélicos"



O Censo Demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2000 indicou a presença de 26 milhões de evangélicos em nosso país. Muito embora o termo “evangélico” designe todos aqueles que freqüentam igrejas cristãs não-católicas, verificando com mais acuidade perceberemos que há grande variação de princípios e práticas dentro do que se entende como igreja evangélica no Brasil e no mundo. Limitaremos este texto a três grandes divisões dentro do evangelicalismo atual, a saber, igrejas Históricas, Pentecostais e Neo-Pentecostais.

1. Diferenças quanto à origem
As igrejas evangélicas históricas tiveram início na Reforma Protestante do século 16, ocorrida na Europa e irradiada para quase todo o Ocidente. Na época, final da Idade Média, alguns religiosos passaram a protestar contra os erros da Igreja Católica Apostólica Romana, comportamento que lhes trouxe a designação “protestantes”. Os erros principais que os protestantes denunciavam eram o comércio das indulgências (perdão concedido pela Igreja em troca de dinheiro), a imoralidade clerical e o tribunal da Santa Inquisição, tribunal que condenava qualquer idéia, mesmo fora da esfera religiosa, que não estivesse de acordo com o pensamento oficial católico. Do movimento de Reforma Protestante descendem as igrejas Presbiterianas, Congregacionais e Batistas.
As igrejas evangélicas pentecostais tiveram seu surgimento, basicamente, no início do século 20. A data mais lembrada é a de 1906 quando, na Rua Azusa, em Los Angeles, nos EUA, iniciou-se o chamado “movimento pentecostal” nome derivado do evento bíblico em que o Espírito Santo desceu sobre sua Igreja. O movimento pentecostal crê na continuidade dos dons neo-testamentários tais como, falar em línguas estranhas, ter visões, revelações e profecias. As principais igrejas originárias do movimento pentecostal são a Assembléia de Deus, a Congregação Cristã no Brasil, a Igreja Pentecostal o Brasil para Cristo, a Deus é Amor e a Igreja do Evangelho Quadrangular.
As igrejas evangélicas neo-pentecostais tiveram seu início na década de 70. Originaram-se dentro do pentecostalismo, contudo, com significativas diferenças. Em 1977 surgiu a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada por Edir Macedo. Em 1980 surge a Igreja Internacional da Graça, fundada por R.R. Soares, e, na seqüência a Igreja Renascer em Cristo e centenas de outras denominações.

2. Diferenças quanto à formação da liderança
As igrejas históricas dão especial atenção à formação de seus líderes. O candidato ao Sagrado Ministério passa por testes físicos, psicológicos e vocacionais antes de ser encaminhado a uma escola de teologia. Aprovado nestes exames, cursa de 4 a 5 anos em um Bacharelado de Teologia e, findo este período, volta a ser avaliado pelos órgãos competentes.
As igrejas pentecostais, no início, não criam que era necessário estudo teológico na formação de seus pastores. Todavia, de 20 anos para cá tem havido uma mudança de pensamento e a maioria destas igrejas já tem seus seminários para onde encaminham os candidatos ao Sagrado Ministério.
As igrejas neo-pentecostais não investem na formação de seus líderes. Geralmente são ordenados pastores aqueles que se destacam por sua oratória, carisma ou liderança. Não há cursos sérios de teologia dentro do universo neo-pentecostal.


3. Diferenças quanto ao corpo doutrinário

As igrejas históricas derivam suas doutrinas do ensino bíblico. Para eles, a Bíblia é a única regra de fé e prática. Seus pastores, no curso teológico, aprendem as línguas originais da Bíblia (hebraico e grego) a fim de estudarem os textos sagrados no idioma em que foram escritos, proporcionando aos fiéis um ensino mais vivo e fiel dos ensinamentos de Deus. Há forte ênfase no estudo bíblico, verificado na instituição da Escola Dominical e no espaço reservado à exposição da Palavra de Deus nos cultos dominicais.
As igrejas pentecostais seguem o ensino bíblico em paridade com a experiência mística. Para eles a Bíblia tem valor, todavia, experiências místicas como o falar em línguas, ou sonhos de revelação, têm primazia sobre o texto bíblico.
As igrejas neo-pentecostais seguem o mercado. Usam a Bíblia como pretexto para suas campanhas exploratórias. Usam o nome de Deus e de Jesus Cristo, mas seu deus é o dinheiro. Não incentivam seus fiéis a lerem a Bíblia, pois, se isto acontecer, serão desmascarados.

4. Diferenças quanto ao culto
As igrejas históricas entendem que o culto é devido a Deus e que este é instituído pelo próprio Criador. Desta forma, há limitações quanto ao que pode ou não pode ser feito em um culto público. Entende-se que o culto é o momento em que os fiéis aproximam-se de Deus com gratidão, devoção, reverência e piedade. Desta forma, a ênfase dos cultos das igrejas históricas é a reflexão e a contrição. Os cultos, via de regra, são ordeiros, silenciosos e lógicos.
As igrejas pentecostais entendem que o culto é o momento onde Deus fala, seja por línguas estranhas, revelações, profecias, ou pela Palavra. São comuns nestes cultos as manifestações místicas atribuídas a anjos ou a Espírito Santo. A ênfase não está na reflexão, mas na emoção e nas demonstrações de poder.
As igrejas neo-pentecostais celebram reuniões que não podemos chamar de culto. Por vezes leilões de ofertas são feitos para conseguirem dinheiro do povo e estratégias mercadológicas são usadas para extraírem dos fiéis os seus centavos. Não há qualquer tipo de ordem ou padrão dentro das igrejas neo-pentecostais. Cada denominação faz o seu ritual.

5. Diferenças quanto à cosmovisão
As igrejas históricas entendem que Deus é Criador de todas as coisas e governa o universo com a força do seu poder. Entendem que toda verdade é verdade de Deus, portanto, o que é verdadeiro na matemática, no direito, na sociologia ou em qualquer área do conhecimento humano tem ligação com Deus, o Pai de toda a verdade. Isto faz com que os fiéis tenham um relacionamento integrado na sociedade, crendo que servir a Deus implica em trabalhar para a melhoria da sociedade.
As igrejas pentecostais dicotomizam suas relações existenciais entre sagrado e profano. O mundo é do diabo e a igreja é de Deus. Desta forma, não têm preocupação com a sociedade, pois esta sempre irá de mal a pior, mas valorizam suas relações religiosas.
As igrejas neo-pentecostais distorcem o ensino bíblico ensinando que os crentes devem ser prósperos financeiramente. Nada é dito sobre pecado, vida cristã ou salvação. O conteúdo da pregação é o de auto-ajuda. Os crentes passam a ter uma visão de mundo deturpada, com lentes materialistas, onde o objetivo é obter prosperidade e o impedimento para isto ocorre por conta do diabo.

Em suma, o termo “evangélico” assemelha-se a um guarda-chuva cobrindo igrejas com práticas bem distintas. Neste pequeno espaço pudemos tratar superficialmente das principais diferenças dentro das correntes evangelicais. Maior estudo será necessário para averiguar diferenças menores. Tenha Deus misericórdia de nós e dê às igrejas a percepção de que só estudando com afinco Sua bendita Palavra é que poderemos estar no centro de Sua Vontade.

Rev. Ageu Magalhães
Pastor Presbiteriano