terça-feira, 29 de março de 2011

A adoração que foi para o espaço!



Por que a Igreja não adora a Deus com o mesmo espírito com o qual ele
é adorado no Céu (segundo as revelações presentes nos livros de
Isaías, Ezequiel e no Apocalipse)? Se a Igreja é a antecipação do
reino e agência deste, porque não levamos a sério e buscamos o modelo
bíblico, já que os princípios bíblicos devem dirigir a igreja? E são
por eles que nos arvoramos em dizer: “somos o povo da Bíblia”. Vivemos
uma adoração megalomaníaca, antropocêntrica, marketeira e consumista.

Todo ato litúrgico da Igreja não deveria ser vivido com ostentação
triunfalística, pois todas as partes da liturgia deveriam servir para
para convidar a todos a voltarem o próprio olhar sobre si e não para
fora de si. A ideia de que adoração está centrada no ser humano é uma
realidade. A adoração não se dá num ambiente etéreo, abstrato, pelo
contrário os sinais e símbolos que a própria igreja extirpou, leva-a a
ter que evidenciar os seus “show-men” que devem promover a presença do
dito “Espírito Santo”. O Espírito Santo que vive “dentro” de nós,
agora está sendo buscado “fora” de nós.

A Liturgia não deveria atingir a imaginação, nem seu fim deveria
doutrinar e submeter as pessoas ao poder de outros homens que decidem
por eles. A noção “sensacionalista” e “emocionalista” está presente em
99,9% dos cultos evangélicos. A imaginação fértil, com gritos de ordem
e induções mentais, chavões e chargões, como "aleluia", "glória a
Deus", "amém irmão", "tá amarrado", "diga a seu irmão isto e
aquilo"...., são fruto de uma adoração que tem mais a ver com
programas de auditório do que com a adoração modelada pelo livro do
Apocalipse. A idéia de que o Espírito Santo está atuando em
determinada igreja, num determinado culto, porque pastor “tal” ou o
pregador “fulano” estará presente faz parte de uma adoração centrada
não no Espírito Santo mas na visão que Deus é quem deve nos favorecer,
por que se adora um deus domesticado como o animalzinho de estimação
dos apartamentos em que vivemos nos dias de hoje.

A Igreja e a Liturgia outra coisa não deveriam ser do que um ambiente
no qual sempre mais olhássemos para nós mesmos, para nosso interior,
lugar no qual Deus se revela. Para isso deveria ser indispensável
abrir os olhos do coração, isto é, da própria interioridade. Mas o que
se vê é uma liturgia voltada para satisfazer os desejos “carnais”
daqueles que vão “assistir” aos cultos. O ambiente é cheio de ruídos
os mais irreverentes, que vão desde o bate-papo usual até os grunhidos
de animais e histeria coletiva. O ambiente que se adora é um ambiente
onde se vai julgar o sermão do pregador, a voz desafinada do cantor e
a temperatura “espiritual” do grupo de louvor. A adoração do século
XXI passa pelo “arrepio”, sensações comuns de um público envolvido
pela imaginação lucrativa de seus líderes e anciãos. Para que tantos
cantores, para que púlpitos abarrotados de homens e mulheres mais
“ungidos” do que os que estão na platéia?

A palavra Liturgia é termo grego e significa “serviço público.” Na
terminologia da Igreja, significa o Serviço Divino. Mas de fato a
igreja evangélica perdeu esta noção. Quando ouvimos perguntas como
“quem é que vai pregar hoje?”, retrata a idéia que culto é uma prática
teatral, isto é, não se vai a um culto para servir mas para se ser
servido. O culto que se pratica revela o cristianismo de consumo que
aí está instalado nas veias e na alma do povo evangélico. E “ai” se o
pregador não corresponder? Liturgia é serviço que se oferece a Deus,
muito além de uma pregação bem elaborada segundo as melhores aulas de
homilética.

O termo “Eucaristia” em grego, significa “agradecimento.” Na
Eucaristia encontramos o sacramento do Novo Testamento instituído por
Jesus Cristo, nosso Salvador, antes de Sua paixão e morte. Mas o que
se faz? Primeiro a própria igreja extirpou a ceia do Senhor todos os
domingos, deixando apenas um domingo, e quando o pregador está mais
“ungido” e passa do horário abdicamos do sacramento e adiamos para o
outro domingo. A igreja rebaixou o sacramento a uma simples ordenança.
Não existe mais fé no sacramento, pois a fé que a igreja evangélica
adota é uma fé racional, explicativa e quando muito margeia o divino,
é para responder aos anseios assim ditos “neo-pentecostais”. Os
apóstolos seguiram fielmente este mandamento de Jesus e celebravam
constantemente este sacramento. Assim faziam também todos os Bispos e
Sacerdotes ordenados pelos apóstolos na Igreja por eles fundada,
seguindo fielmente esta prática até o século IV. Basílio, o Grande,
João Crisóstomo desenvolveram uma liturgia que foi banida do meio da
Igreja há muito tempo.

Ou renunciamos esta prática herética de nosso meio voltando nosso
olhar para Cristo como centro de uma adoração verdadeira, buscando a
oração como fonte original da devoção, ou estaremos fadados a nos
perdermos de vez de acentuando sempre uma igreja que abandonou o
primeiro amor e adorou mais a criatura do que seu Criador.

Kyrie Eleisón
Texto: Luiz Augusto Bueno

terça-feira, 1 de março de 2011

Espiritualidade de Acampamento



“Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis. Os homens serão egoístas,...guardarão a aparência de piedade, negando-lhe entretanto o poder. Afasta-te também deles”. (2 Timóteo 3.1-5)

Durante a história da igreja cristã, os discípulos de Jesus Cristo, sempre buscaram uma espiritualidade sincera, verdadeira e cheia de temor. Essa espiritualidade não dependia de pessoas, mas se alimentavam de práticas que não tinham nada de inovadoras. Oravam incessantemente a Deus e buscavam nas escrituras sagradas do Antigo Testamento palavras que lhes consolassem, ouviam os relatos dos que estiveram com Jesus Cristo e viviam seu di-a-dia, buscando as coisas simples e ajudando as pessoas necessitadas.
Não dependiam de eventos, mas mantinham suas vidas com as chamadas “disciplinas espirituais”. Liam os Salmos e oravam. Estas práticas eram diárias e o domingo de manhã na liturgia era o grande encontro deles com a Palavra Escrita e com a Ceia do Senhor, a Eucaristia, todos os domingos. Não havia muitos pregadores eloquentes, mas fiéis Leitores ( 1 Timóteo 4.13) Não era uma espiritualidade que dependia de eventos extra-igreja. Ou melhor o calendário das igrejas era um calendário que envolvia-os nas celebrações da vida especialmente as que relembravam o “Mistério Pascal”, isto é a Vida, Obra e Ressurreição de Nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo.
Não dependiam de cruzadas evangelísticas, encontros monumentais, reuniões especiais, cultos sensacionalistas, não havia propaganda, marcações de horários especiais. Viviam e relembravam todos os dias o Grande Evento: a vida, morte e ressurreição do Senhor. Ele era o centro de tudo.
Hoje vivemos uma fé que depende de movimentos e do calendário de nossa sociedade. O Carnaval é um destes movimentos. E ao invés de fortalecermos a fé nestes dias, a maioria das igrejas promove acampamentos para evitar que os “crentes” e “filhos de crentes” caiam da “folia”, mas nestes encontros de fé, alguns chegam a criar o seu próprio “carnavalzinho”. Muitos esquecem das práticas espirituais e transformam os encontros em meras reuniões sociais. Já participei de “acampamentos” sem sentido. Não havia nenhuma disposição de um retiro espiritual, pelo contrário recheavam todo encontro com gincanas sociais, “skeats” onde muitos jovens se vestiam de mulheres, entre outras coisas que nada tinham a ver com um encontro de espiritualidade.
Nestes dias onde “ser crente” significa, na maioria das vezes, fazer parte de uma entidade social, necessitamos voltar às origens, buscar a prática da espiritualidade da Igreja Antiga. Ensinar as primeiras letras, renunciar práticas que nada tem a ver com a fé verdadeira e simples. Pararmos de agir como meninos, levados por todo vento de pregações e pregadores. Paramos de andar de igreja em igreja, buscando uma palavra nova. Tomarmos decisões que nos levem a bebermos da Fonte Limpa e não de fontes turvas. Sabermos dizer “não” a opressão que nossa sociedade faz sobre nós e de fato em nosso dia-a-dia sermos “luzeiros num mundo” (Filipenses 2.15). Deixarmos de sermos crentes consumidores de uma fé oferecida no mercado dos canais de televisão por meio de múltiplas denominações.
Queremos continuar a fazer da nossa espiritualidade uma espiritualidade de acampamento e eventos? Queremos continuar a sermos subservientes aos gostos e desgostos de muitos líderes religiosos evangélicos de nosso tempo? Ou queremos buscar a verdadeira espiritualidade, cuja Fonte nunca secará? Somos sedentos por tudo o que é inovação, porque vivemos um cristianismo que é moldado pelo consumismo de uma fé que perece. Por isso as pessoas precisam sempre de uma palavra nova, uma nova canção, pois não conseguimos alimentar o coração somente com o que é Essencial. Que tipo de espiritualidade queremos? Uma espiritualidade de “acampamento” ou desejamos beber da fonte perene, que nunca seca, se renova por si mesma e dessedenta aquele que a busca com a fé simples, verdadeira e perseverante?
Texto: Rev. Luiz Augusto Bueno