quinta-feira, 15 de setembro de 2011

AS CONVIVÇÕES BÍBLICAS PARA PLANTAR NOVAS IGREJAS



Paulo constitui-se, sem dúvida, no maior paradigma de plantação de igrejas dentro do cristianismo. Dois aspectos, entre muitos, podem explicar esta singularidade do apóstolo. O primeiro relaciona-se com o fato dele conjugar em sua pessoa uma combinação rara de características que, a meu ver, não foi repetida em sua plenitude por nenhum outro personagem da história das missões cristãs: teólogo, missionário e pastor. Foi ao mesmo tempo um teólogo profundo cuja mente brilhante fora capaz de, sob o influxo do Espírito, de sistematizar as bases da teologia cristã, um missionário ardoroso cuja paixão evangelística o levou a ultrapassar enormes barreiras para compartilhar a boa nova do evangelho e ainda revelou-se um pastor extremamente cuidadoso com os seus muitos filhos espirituais. Um segundo aspecto relaciona-se com sua estratégia missionária. Paulo teve como ponto de partida e de chegada de suas atividades missionárias a plantação de novas igrejas. Focado nas cidades do seu tempo, revelando claramente uma ênfase urbana em sua maneira de fazer missões, plantou durante dez anos (de 47 a 57) igrejas na Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia, províncias que compunha uma das bases principais do império Romano.
O problema com paradigmas tão completos como Paulo é a tentação de vê-los como inalcançáveis e distantes da nossa realidade comum. Para evitar esta reação e não fazer de Paulo um padrão anacrônico, precisamos perceber quais são as pontes a nos ligar com a realidade dele e com clareza discernir o que é repetível em nosso contexto e aquilo que é próprio e único na pessoa e ministério do apóstolo dos gentios. Esta é uma tarefa bem maior do que o espaço deste pequeno artigo, por isso mesmo, proponho que nos centralizemos em um ponto de ligação entre Paulo como plantador de igrejas e cada um de nós hoje envolvidos no processo de plantar uma nova igreja. As convicções que levaram o apostolo a plantar novas igrejas devem ser as mesmas a inspirar, orientar e julgar as nossas!
Paulo se moveu basicamente ancoradas em quatro convicções que se tornaram em si mesmas suas mais profundas motivações para plantar novas igrejas:

A Convicção Ministerial: A Edificação da Igreja de Cristo
Paulo percebeu a essência do seu chamado ministerial como sendo para edificar a igreja de Jesus Cristo. Entendeu que as promessas dadas por Deus ao longo da história, como a restauração de Israel, a criação de um povo santo vivendo dentro de um novo paradigma de relações comunitárias nas quais as barreiras entre judeus e gentios seriam superadas, se concretizariam todas na igreja de Jesus (Ef 2). A igreja plenificaria as promessas, mas também esta mesma Igreja, na visão Paulina, era a plenitude histórica de Cristo, ou por palavras mais teológicas, é na eclesiologia que a cristologia se plenifica historicamente (Ef 1.23, Ef 2.15; 4.24; Cl 3.10). Ao plantar uma nova igreja, Paulo entendia estar dando concretude histórica a presença de Cristo neste mundo. Por isso ele via seu ministério como sendo o de edificar, construir, plantar, regar, fazer crescer a igreja de Jesus.

A Convicção Missionária:
As Boas Novas como instrumento mais essencial da edificação da igreja
Na complexa “arquitetura” de edificar a igreja de Jesus, Paulo tinha uma preocupação essencial com o alicerce. O fundamento desta igreja era o evangelho, o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (I Cor 3:10-12; Ef 2:20). Sua incrível criatividade metodológica de se fazer “tudo para todos, para, por todos os meios, chegar a salvar alguns”( I Cor 9:20-23) não implicava em negociar o conteúdo básico ou a raiz mais profunda sobre a qual a igreja ia crescendo: a pregação da boa nova do evangelho. Nenhum método substituía este elemento central que na visão do apostolo era sem dúvida o mais e o único eficaz parar plantar, regar e fazer crescer a igreja de Cristo. Não era difícil então supor que a realização do apóstolo não se dava por conta de qualquer resultado, mas sim quando via as igrejas plantadas por ele fundamentadas no evangelho!

A Motivação Escatológica: O fim já começou!
Qualquer leitura, mesmo a mais desatenta das cartas paulinas, vai nos dar conta da curta perspectiva escatológica do apóstolo. Para ele o final dos tempos começou quando o tempo chegou a sua maturidade, alcançou a plenitude na pessoa de Jesus. Todas as coisas, as celestiais e terrenas, que convergiriam em Cristo, começaram no seu tempo (1 Cor 10:11; Gl 4:4, Ef 1:10). Tal perspectiva injetava em suas veias missionárias um senso de urgência tão profundo que o levava a não ter dúvida de que “eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação” (2 Co 6.2b). O semear novas igrejas por todo o império era uma resposta imediata a urgência da missão. Não havia tempo a perder. Jesus batia a porta da história e convinha até sua chegada definitiva estabelecer sua igreja!

A Convicção Metodológica: A plantação de Igrejas Locais
Todas estas motivações geradoras da atividade missionária paulina encontravam na organização de igrejas locais sua face concreta e histórica. Os convertidos ao evangelho pregado se reuniam em comunidades locais dentro das quais cresciam na fé e no conhecimento! Estas comunidades não viviam somente do carisma, ou da dimensão espiritual e romântica da fé, organizavam-se institucionalmente, como por exemplo, o estabelecimento de uma “hierarquia” mínima e de processos de eleição das suas lideranças (At 14.21-23). Era dentro do contexto da igreja local que Paulo discipulava os novos, identificava liderança e os levava a assumirem o cuidado das igrejas, embora o apóstolo nunca deixasse de voltar e supervisioná-las (At 15.36; 16.4-5; 18.23).

Está posto então que na ponta última da cadeia de convicções de Paulo estava a plantação de uma igreja local. Não fosse esta convicção metodológica de plantar igrejas locais, a atividade missionária de Paulo tenderia a se pulverizar e mesmo não ter qualquer relevância e permanência na história, visto que foi pelas igrejas que plantou que o evangelho foi sendo disseminado de geração em geração.

O contato com estas convicções de Paulo deve inspirar a todos nós envolvidos hoje com o processo de plantação de novas igrejas a uma tarefa mínima e essencial: checar diante de Deus a saúde, a pureza e firmeza das nossas! Isto porque, como sabemos todos, com muita rapidez podemos estar construindo impérios pessoais e dando a eles o nome de Reino de Deus. Este texto quer nos ensinar que o processo de plantação de uma nova igreja começa nas convicções. Elas habitam a dimensão subjetiva do nosso ser e a parte invisível do nosso olhar, por isso mesmo, estão na ordem do essencial! São elas e somente elas que nos farão lutar o bom combate, por elas vale a pena lutar todas as lutas e enfrentar todas as barreiras para plantar uma nova igreja. Nunca é tarde para lembrar e nem é muito repetir: diante de Deus são as nossas motivações que qualificam as nossas ações. A pergunta que não pode calar no processo de plantação de uma nova igreja é: quais são as convicções básicas que me levam a plantar uma nova igreja? Sem dúvida que a fantástica experiência de Paulo como plantador de igrejas é um referencial indispensável para respondermos para o nosso coração diante do olhar daquele que tudo sonda, a esta pergunta!

Texto: Rev.Eduardo Rosa Pedreira

sábado, 10 de setembro de 2011

UMA ABERTURA PRECÁRIA A UM FUTURO NOVO

Por Richard Shaull*

Enquanto buscamos qualquer significado perante os inimagináveis e devastadores atos de 11 de setembro de 2001, muitos se voltavam para a religião buscando consolação e também procurando uma resposta à questão: onde se encontra Deus em tudo isto? Nesta situação, nós, que somos cristãos, confrontamo-nos com um tremendo desafio.
No centro de nossa fé está a convicção de que o Deus que criou este mundo deu aos seres humanos uma liberdade extraordinária para criarem condições para uma vida abundante para todos ou para explorar esta liberdade na destruição da vida humana e da sociedade. Deus nos deu esta escolha. Ele não viola esta liberdade nem a tira de nós, mesmo que seja explorada inadequadamente por gente desesperada.
Nossa herança de fé declara também que Deus está presente neste mundo de forma ativa. Deus está presente como aquele que ouve os clamores dos povos pobres e abandonados da terra. Deus os acompanha em sofrimento, convoca-nos a que os acompanhemos e oferece vida, a nós e a eles, enquanto respondemos ao seu choro.
Se nós confiamos na presença deste Deus, nossa percepção acerca da situação em que nós nos encontramos, pode mudar gradualmente. Nós repudiamos a destruição de vidas inocentes e nos solidarizamos com nossa nação em sua determinação de encontrar os perpetradores desta destruição e de que sejam julgados. Mas podemos também nos descobrir indo para mais além disto em nossa compreensão tanto do que aconteceu como de nossa resposta a isto.
Não podemos deixar de nos perguntar: Como poderia isto nos ter acontecido? Ou como, na época, Claude Lewis, colunista do The Philadelphia Inquirer o fez: “Que agravo teria sido tão sério que haja levado homens em terras estrangeiras a planejar o seu próprio suicídio com dois ou três anos de antecipação – apenas para assassinar americanos?”
Depois de passar a maior parte de minha vida adulta vivendo e trabalhando em países do “Terceiro Mundo” penso que não precisamos procurar muito longe para descobrir uma resposta.
Nós, na América do Norte, temos nos contentado em desenvolver em nosso benefício e até os seus limites um sistema econômico que produz riqueza para nós – que somos uma mui pequena proporção dos povos criados por Deus – e que desenvolve as mais avançadas tecnologias para nos enriquecer ainda mais a nós mesmos e aumentar o nosso poder. Temos feito muito para pouco transformar esta ordem e servir às mais urgentes necessidades de centenas de milhões de povos pobres e excluídos.
Temos nos permitido apoiar uma política externa que pouco tem feito para contrapor a agressão dos poderosos contra suas vítimas. Muito freqüentemente usamos também nosso poderio militar e econômico para sustentar aqueles que exploram o seu povo e solapam os esforços dos que lutam em prol da justiça.
Precisamos reconhecer que nossos tremendos desenvolvimentos tecnológicos nos trouxeram a um ponto tal em que uns poucos homens, prontos a morrer por sua causa, podem fazer com que nossa mais recente tecnologia se volte contra si mesma. O potencial que esta possui para a destruição é quase ilimitado. Como uma nação e como um povo, somos agora vulneráveis. Todo o nosso poderio militar e nosso poder econômico não podem mudar isto.
Podemos responder dedicando ainda mais de nossas energias e de nossa riqueza àquelas coisas que nos falharam e que continuarão a fazê-lo. Podemos, perante nossa vulnerabilidade e insegurança, dar lugar ao desespero sem qualquer esperança para o futuro. Ou, podemos ousar crer que nisto, e por meio disto tudo, Deus está presente, oferecendo-nos a possibilidade de criar um novo futuro.
Tomar parte nisso exige uma conversão radical. Uma decisão de dedicar nossas energias – com uma paixão comparável à dos bombardeadores suicidas – à descoberta de como usar nossa riqueza material, nossa inteligência e nossos avanços tecnológicos para responder ao desesperado sofrimento dos povos dominados e abandonados. Caso contrário, podemos estar certos de que o crescente número dos que não vêem esperança de mudança atacarão enraivecidos, nova e freqüentemente, os que têm riqueza e poder.
O reconhecimento de que não mais podemos tomar em nossas mãos a responsabilidade de impor ordem ao mundo, usando nosso poderio militar e poder político para monitorar e dominar o mundo. Não podemos mais marcar passo perante os amargos conflitos entre os povos, geradores da violência e do desespero, especialmente aqueles que ajudamos a criar. Podemos discernir que somente a constante colaboração e interação com outras nações e povos podem levar o mundo à segurança e à paz.
Esta pode parecer uma tarefa esmagadora. Em atitude de fé nós a empreendemos sem exigir uma garantia de que seremos bem sucedidos. Mas ela é – estou convencido – o caminho para uma vida significativa para nós e uma fonte de esperança para outros. E ela oferece a possibilidade de desafiar uma nova geração com uma visão que oriente suas vidas. Assim fui grandemente encorajado ao ouvir estas palavras de um jovem graduando do Haverford College: “Este pode ser um evento central na história. Talvez ele incite uma cultura de terror. Mas talvez seja um catalisador para espalhar a paz e a justiça”.
Quem quer que sejamos, podemos agora aproveitar a oportunidade para convocar umas poucas outras pessoas para juntos discutirmos modos pelos quais nossas perspectivas, nosso estilo de vida e nossas lutas políticas possam ajudar nossa nação ao longo do caminho para uma nova vida.
Se nossa nação voltar suas costas a esta oportunidade dada por Deus, colocar sua confiança somente em respostas militares e contribuir, direta ou indiretamente, para a morte de um crescente número de crianças, mulheres e homens inocentes, então este testemunho de pequenas comunidades de fé será igualmente importante. Pois nossa recusa em aproveitar esta oportunidade tornará quase inevitável o ressurgimento do terrorismo em uma dimensão que agora nem podemos imaginar. Ele poderia soprar sobre as chamas do ressentimento que agora existem contra nosso poder e nossa riqueza e contra o uso que deles fazemos. E nossa nação poderia acabar contribuindo para uma espiral descendente da civilização para uma nova idade da barbárie. Neste contexto, revitalizadas comunidades de fé – orientadas na direção de um futuro diferente e vivendo no poder do Espírito – sustentarão esta visão e manterão viva a esperança.
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* Richard Shaull teólogo americano atuou no Brasil e América latina. Considerado um dos precursores da teologia da libertação. Escreveu esse artigo, aos 82 anos, sobre o 11 de setembro. Shaull faleceu no ano seguinte em 2002.