terça-feira, 26 de junho de 2012

Separação entre igreja e estado ou entre fé e política?

O estado opera no universo político, pautado pelo que é benéfico, prático e oportuno. Mas este universo não é autônomo, não existe no vácuo e não possui dentro de si mesmo uma base para o estabelecimento de verdades norteadoras transcendentes. A igreja opera no universo da fé, pautada por aquilo que crê ser a verdade, e destarte seu universo engloba em de si o universo da política, pois é neste âmbito que operam os conceitos norteadores e as crenças transcendentes quanto à verdade, justiça, certo e errado, bem e mal. "A ética cristã dita que fé e política não se misturam!" Com essa frase, um líder religioso (que quase sempre tinha algo a dizer sobre política) expressava uma ideia corrente, mas que pode estar equivocada tanto do ponto de vista político quanto do religioso. O momento das eleições é propício para refletir sobre a possibilidade desse equívoco e assim compreender a relação ética entre as crenças religiosas e a vivência política, desde a simples condição de eleitores até a nobre carreira política (nobre porque as Escrituras Sagradas dizem que os nossos líderes políticos, para bem ou mal, são "ministros de Deus"! - Rm 13. 1-4). Talvez, um bom começo seja distinguir a separação crucial entre Igreja e Estado -- tão importante na vida pública e social de uma nação democrática moderna -- e o sofisma envolvido em uma suposta separação entre fé e política. Esse parece ser um passo necessário na busca de princípios éticos norteadores para o exercício da atividade política. Pensar em igreja e estado (no sentido moderno secular) é estabelecer uma relação de cunho primariamente institucional, colocando em um mesmo plano duas esferas de autoridade delimitadas por horizontes distintos: O estado é uma esfera soberana, ainda que não autônoma; sua obrigação institucional é para a sociedade em geral. Seu universo é a política e consiste daquilo que é benéfico, prático e oportuno para a sociedade que o constitui. A igreja como instituição -- e por extensão todas as instituições religiosas -- também representa uma esfera soberana nas relações humanas, cujo universo é o da fé, consistindo de crenças quanto às verdades transcendentes e de práticas consequentes. Sua obrigação é distinta da do estado, pois sua missão não é meramente uma de benefício, praticidade e oportunidade, mas, sim, de crença professada como verdade norteadora. Os dois âmbitos institucionais, ou seja, o estado e a igreja, devem ser mantidos distintos, ainda que marcados por certa reciprocidade. São esferas soberanas, como dizia o primeiro ministro holandês (e teólogo) Abraham Kuyper (1837-1920). Quando toma sobre si a responsabilidade de institucionalizar certas crenças, verdadeiras ou não, o estado usurpa de Deus a soberania sobre uma esfera que foge do seu escopo e do mandato divino (Rm 13.4). Semelhantemente, quando a igreja abandona a esfera que é sua de direito, quando deixa de proclamar suas crenças quanto ao que é a verdade e se coloca na posição de lutar em seu próprio benefício, pautada simplesmente pelo que é prático e oportuno, a igreja abre mão de sua verdadeira identidade e se transforma-se em uma monstruosidade. Aqueles que compõem a igreja como instituição compartilham um horizonte comum, delimitado por crenças particulares quanto às verdades transcendentes. Os que compõem um estado (seus cidadãos) também compartilham um horizonte comum, mas este é delimitado pela arbitragem das relações legais, sociais e econômicas e pela promoção do bem comum. A confusão nas relações estado e igreja, com seus horizontes distintos, deturpa tanto o estado como a igreja. A questão muda, no entanto, se disser respeito à relação entre fé e política. O âmbito político é o universo no qual o estado opera; o âmbito da fé é o universo dentro do qual as instituições religiosas, confessionais ou não, operam. Esse último é o universo cujos contornos são traçados por aquilo que é crido como sendo verdadeiro -- e vale lembrar que, a despeito do "inclusivismo" moderno, o conceito de verdade continua sendo, por natureza (e por definição), exclusivista. Nesse ponto, a relação deixa de ser horizontal e torna-se, então, hierárquica (veja Mt 22.21): O estado opera no universo político, pautado pelo que é benéfico, prático e oportuno. Mas esse universo não é autônomo, não existe no vácuo e não possui dentro de si mesmo uma base para o estabelecimento de verdades norteadoras, transcendentes. A igreja opera no universo da fé, pautada por aquilo que crê ser a verdade e, destarte, seu universo engloba o universo da política, pois é neste âmbito que operam os conceitos norteadores e as crenças transcendentes quanto à verdade, justiça, certo e errado, bem e mal. Tais afirmativas podem ser desconcertantes, mas não são difíceis de entender: A identificação daquilo que é prático e oportuno pode ser meramente política. Mas como é que se define, no âmbito estritamente político, o que é verdadeiramente benéfico? É aqui que o universo da fé fornece as crenças básicas quanto ao que é verdadeiro, justo, certo, e assim, se relaciona de forma hierárquica com o âmbito político. Negar as verdades e os valores transcendentes, abjurar terminantemente o âmbito da fé e afirmar a supremacia do universo social e político, são coisas do âmbito da fé! Para citar mais uma vez o estadista holandês: "Nenhuma estrutura política que não se baseie em específica concepção religiosa ou anti-religiosa torna-se dominante" (Stone Lectures, Princeton, 1898). Texto: Rev. Dr. Davi Charles Gomes. Saiba mais em coramdeo.com.br

terça-feira, 5 de junho de 2012

O Fenômeno do Arrepio

Nestes dias em que o mundo valoriza mais os sentidos do que a razão e em que a Igreja Evangélica aprecia mais as emoções do que o conhecimento, tenho observado um comportamento bastante comum nas igrejas, ao qual dei o nome de "fenômeno do arrepio". A situação é a seguinte: A pessoa passa a semana inteira longe dos caminhos do Senhor, seja por negligência ou por vida de evidente pecado. No domingo vai à Igreja e, no período de cânticos (erroneamente chamado "período de louvor", porque louvor deve ser encontrado em todo o período de culto) ela se emociona e sente um arrepio. Pronto. "Tive uma experiência com Deus", "Eu senti Deus me tocar", "o louvor foi uma bênção", conclui. Volta à sua semana de negligência e pecados, mas com a consciência anestesiada, pois a experiência do domingo mostrou que Deus está com ela. Isso tem acontecido. Não é difícil ver pessoas levantando as mãos nos cultos, chorando, se emocionando e, não raro, perceber que algumas destas não têm vida com Deus. Estão ali apenas em uma catarse espiritual. Deus não se agrada disto. Ele mostra em sua Palavra que o culto não é um momento à parte de nossa vida, mas que tem total ligação com ela. Jesus ensinou no Sermão do Monte: "Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta." (Mt 5.23,24). O que fazemos durante a semana tem total ligação com o culto comunitário. Este é o ápice, o momento alto de nossa adoração. E, se é o ápice, significa que a adoração não começa no domingo, mas ela vem de uma semana inteira de adoração, através de nossa obediência aos caminhos do Senhor. Romanos 12. 1: "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional." Este apresentar é contínuo. Indica o nosso viver diário. Por meio do profeta Isaías Deus condenou o comportamento do povo que passava a semana pecando e depois ia se apresentar diante dEle, como se nada houvesse acontecido. Veja: "De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? —diz o SENHOR. Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de animais cevados e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante mim, quem vos requereu o só pisardes os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e também as Festas da Lua Nova, os sábados, e a convocação das congregações; não posso suportar iniqüidade associada ao ajuntamento solene. As vossas Festas da Lua Nova e as vossas solenidades, a minha alma as aborrece; já me são pesadas; estou cansado de as sofrer. Pelo que, quando estendeis as mãos, escondo de vós os olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas." (Is 1.11-17) Voltanto ao arrepio, Deus quer de nós mais que isso, quer obediência. Se emoção fosse sinal de aprovação de Deus, grande parte da população estaria no seu momento mais santo quando vê a bandeira nacional sendo asteada ao som do Hino Nacional. Deus quer nosso coração. Deus quer submissão à sua vontade. Deus quer obediência. Temos a aprovação de Deus quando a nossa vida exala o bom perfume de Cristo (2Co 2.15); quando Deus olha para nós e, à semelhança de seu Filho, se compraz (Mt 3.17); quando olha para a sociedade e nos distingue como piedosos (Sl 4.3). Busquemos isto. Rev. Ageu Magalhães, Saiba mais em: www.resistenciaprotestante.blogspot.com